A dor estava nitidamente expressada na voz embargada dos avós, no choro do pai que cuidava da filha desde os três anos quando a mãe resolveu ir embora. A sociedade fez manifestação, clamou por justiça, queria os autores do bárbaro crime da menina Ana Clara Firmino, de apenas 12 anos, penalizados. E a postura consistente do Ministério Público de Alagoas (MPAL), representado pelo promotor de Justiça da Comarca, José Antônio Malta Marques, com a assistente de acusação Júlia Nunes, sensibilizou o conselho de sentença que foi firme na votação e, após 18 horas de análises, levou à condenação Lailton Soares da Silva, de 25 anos, José Jonas da Silva Júnior, de 24 anos, e Edneide Pereira Santos que, juntos, ultrapassaram 163 anos de prisão por feminicídio e tentativa de homicídio contra um adolescente que estava em sua companhia. Lailton recebeu como sentença 52 anos, dois meses e 25 dias de prisão, enquanto Jonas e Edineide tiveram pena definitiva de 55 anos e onze meses de reclusão, todos em regime fechado.
Durante todo julgamento, e até mesmo antes dele, em suas oitivas, os réus entraram em inúmeras contradições reportando a autoria do crime um para o outro. No entanto, as informações colhidas durante a investigação sempre foram as de que Lailton perseguia Ana Clara porque a menina teria se recusado a namorar com ele e cometido o crime por vingança. Nesta quinta-feira (14), diante do juiz, Jonas manteve a versão de que teria dado uma carona a Lailton mas que, chegando ao local, ele já teria descido do carro e ido em direção à Ana Clara com uma faca. Que chegou a descer do carro na tentativa de salvar a criança, mas percebido que ela já estaria morta.
Na versão de Lailton, estava dormindo no banco traseiro do carro e teria acordado com a freada brusca de Jonas e que, ao perceber que ele descera armado, empreendeu fuga, correndo até sua residência. O que foi desmentido por Jonas ao assegurar que Lailton estava na parte da frente o tempo todo, ocupando o banco do carona.
“Eu estava deitado no banco traseiro , não vi nada, só acordei quando o carro freou com força, aí fiquei com medo e saí correndo”. Na verdade, a defesa de Lailton sustentou essa fala porque o laudo oficial da perícia, inclusive com reconstituição feita no local, afirmou que o assassino saiu pelo lado direito do veículo. Por conta da afirmação da perícia, sobre o assassino ter saído pelo lado direito, ao ser questionado por sua advogada, em perfeita combinação, ele disse que a porta traseira, do lado direito, estava com defeito. Outro relato do autor dos golpes em Ana Clara foi que Jonas teria lhe oferecido 7 mil reais e o carro usado no crime para que assumisse a culpa.
“Como eu ia oferecer dinheiro a ele pra assumir alguma coisa se foi ele mesmo”? Disse Jonas. As contradições eram tão nítidas e revoltantes que a sociedade civil que acompanhou o júri expressava indignação por meio de olhares assustados.
O desabafo do pai de Ana Clara, os olhos vermelhos de choro, comoviam a população. Durante todo o dia, até o final do júri na madrugada, famílias acompanharam atentamente do lado de fora.
“Eu só sei que perdi minha filhinha, uma menina educada, boa, uma criança que podia ter um futuro grande, mas eles não deixaram, fixeram essa covardia, eu só quero que a justiça seja feita porque dela a gente não vai esquecer nunca”, disse José Ailton, o pai.
José Antônio Malta Marques falou sobre a sensação de dever cumprido, de poder amenizar o sofrimento da família de Ana Clara e ter a certeza de que seu espírito, agora descansará.
“Eles foram provas deles mesmos quando se acusaram entre si, a condenação mostrou à sociedade que ninguém merece passar por uma crueldade dessa, Ana Clara foi vítima de uma monstruosidade, uma criança que tinha uma vida inteira pela frente, assassinada porque disse um não. Os jovens, os homens, precisam entender desde cedo que meninas e mulheres não são objeto de posse. Nossa missão era promover justiça, precisávamos aliviar a dor da família, precisávamos dar uma resposta à população de Maravilha, de Alagoas e do Brasil porque esse caso repercutiu. A condenação serve para reafirmar que o crime não compensa, que nada ficará impune e que estaremos sempre atuando em defesa da vida e pela dignidade humana. Ana Clara, agora, ficará em paz.”, afirma o promotor que, durante os debates, dirigiu-se aos jurados como se fosse a vítima falando.
A advogada Júlia Nunes reforçou o posicionamento do MPAL e ressaltou que os homens precisam parar de achar que mulher é objeto
“A gente precisa entender que não dá mais, não interessa o motivo, se foi ou não passional, mulheres não podem ser assassinadas, muito menos mulheres que não são mulheres, e aqui estou me referindo a crianças, já tivemos em Maravilha o caso da Beatriz que foi estuprada, morta e colocada no telhado e, agora, da Ana Clara, isso é um absurdo. O crime teve várias contradições, as pessoas foram treinadas para mentir e conseguimos desfazer suas falas. Ana Clara era uma menina meiga, depois de morta brutalmente ainda foi julgada pela sociedade. Provamos que os três eram culpados, que o menino sobrevivente depôs com medo, que a família de Ana Clara estava com medo também, os assassinos, apesar de jovens, se mostraram frios e perigosos e jamais poderiam se safar e voltar para a sociedade sem pagar pelos seus crimes”, declara a assistente de acusação.
Para evitar tumulto, com antecedência, o juiz local pediu que quem tivesse interesse no júri fizesse inscrição, por essa razão, para adentrar no salão, tinha que o nome ser conferido numa lista e um adesivo ser colocado com a identificação na roupa.




