“Eu acho que foi uma luz no fim do túnel para muitos adolescentes, para conseguir ajudar suas famílias e também, claro, pela oportunidade de aprendizado.” A declaração de uma das adolescentes que participou do curso de Serviços Administrativos traduz a expectativa de quem começa a enxergar novas possibilidades para o futuro. A formação, promovida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), após tratativas feitas pelo Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL) e a Superintendência de Medidas Socioeducativas (Sumese), chegou ao fim de sua etapa teórica/prática com uma atividade, realizada no prédio-sede do MPAL, que uniu conhecimento, expressão artística e perspectivas de inserção no mercado de trabalho.

O encerramento dessa primeira etapa foi marcado pela apresentação do espetáculo Alice no Mercado das Maravilhas, encenado pelos próprios adolescentes em conflito com a lei. Por meio da arte, eles deram voz aos sonhos, às expectativas e aos desafios de quem busca construir uma nova trajetória após o cometimento de um ato infracional. A apresentação também mostrou como a educação, a cultura e a qualificação profissional podem contribuir para a construção de novos projetos de vida.

A iniciativa nasceu de uma articulação fomentada pelo Ministério Público, que buscou a parceria do Senac e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para ampliar as oportunidades de formação profissional destinadas aos adolescentes atendidos pelo sistema socioeducativo. A proposta é aproximar esses jovens do mundo do trabalho, oferecendo conhecimentos, experiências e condições para que possam planejar o futuro com mais autonomia.

Formação profissional e oportunidade de trabalho

Nesta etapa, dezenas de adolescentes concluíram a parte teórica/prática do curso de Serviços Administrativos, com conteúdos voltados às rotinas do ambiente profissional. A formação inclui atividades como realização de cadastros, organização e elaboração de documentos oficiais, digitação, utilização de planilhas eletrônicas e criação de apresentações.

A formação teórica integra um percurso de aprendizagem com carga horária de 400 horas, desenvolvido ao longo de mais de um ano, que será seguido, a partir de agora, de aproximadamente oito meses de atividades exclusivamente práticas. A proposta é proporcionar aos participantes uma preparação progressiva para as exigências do mundo do trabalho.

Um dos diferenciais da iniciativa é que os adolescentes já são contratados por empresas participantes na modalidade de jovem aprendiz, com carteira assinada. A oportunidade permite que eles tenham acesso à renda durante o processo de formação, contribuam com as despesas de suas famílias e reservem recursos para o futuro, além de adquirirem experiência profissional.

A iniciativa integra um conjunto de ações voltadas à qualificação de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas. Ao longo da parceria, foram ofertados cinco cursos, alcançando centenas de alunos. O Ministério Público do Trabalho (MPT) também é parceiro na atuação para ampliar o acesso desses adolescentes à capacitação e às oportunidades profissionais.

Ministério Público articula oportunidades e acredita na transformação

A promotora de Justiça Marília Cerqueira, da 12ª Promotoria de Justiça da capital – com atribuição na execução de medidas socioeducativas, emocionou-se ao comentar a apresentação teatral e a desenvoltura dos participantes. Ela destacou a qualidade das falas, a atualidade das mensagens e a capacidade dos adolescentes de expressar, por meio da arte, a perspectiva de mudança que orienta o trabalho desenvolvido pelas instituições parceiras.

“Todos que estão aqui acreditam em vocês. Por isso, nós não desistimos. Temos desafios e dificuldades, mas buscamos articular toda essa rede para que possamos dar as mãos, como estamos fazendo aqui. Tudo em prol de vocês, porque acreditamos em cada um e em cada uma”, declarou ela.

A promotora também chamou a atenção para o trabalho que nem sempre é visível, mas que faz parte da atuação institucional: a articulação entre os órgãos, o acompanhamento dos casos e a busca por alternativas capazes de favorecer a reinserção social dos adolescentes. “Todos aqui são verdadeiramente abnegados. A gente vê cada história, pessoas que deixam de fazer algo pessoal, que se dedicam e ultrapassam o horário de trabalho. E, quando não estamos aqui, continuamos pensando em vocês, trabalhando nos sistemas e buscando, junto com a rede, encontrar caminhos”, ressaltou.

Para Marília Cerqueira, a apresentação teatral mostrou que a perspectiva de transformação defendida pelas instituições não se limita ao discurso. Ao reconhecer o talento e a desenvoltura dos participantes, ela reforçou a importância de continuar investindo em iniciativas que associem responsabilização, educação, profissionalização e oportunidades concretas.

“Eu acredito na mudança desses jovens”

A gerente de Desenvolvimento Integral da Sumese, Tauana Samara Santos, destacou que o trabalho desenvolvido no sistema socioeducativo tem como propósito contribuir para a transformação de vidas. Para ela, a possibilidade de reencontrar os adolescentes fora das unidades de internação é motivo de orgulho, porque representa a continuidade de um trabalho realizado com compromisso e confiança na capacidade de mudança de cada um. “Todos os dias em que trabalho na Sumese, é na busca para restaurar vidas. Eu não tenho medo de encontrá-los na rua daqui a algum tempo, porque acredito em cada um deles. Nunca quis saber o ato infracional que os levou até ali. Sempre quis olhar para eles com a perspectiva de mudança”, afirmou.

Tauana Samara ressaltou que a transformação não depende apenas do esforço individual dos adolescentes, mas também da disposição da sociedade em oferecer oportunidades para que eles possam reconstruir suas histórias. “Eu acredito na mudança desses jovens, acredito na mudança da sociedade e acredito que a gente pode fazer a nossa parte todos os dias, um pouquinho. É por isso que continuo no sistema socioeducativo”, acrescentou.

Educação que ultrapassa os muros das instituições

O diretor de Educação Profissional do Senac, Sandro Diniz, defendeu o papel da educação profissional na preparação dos adolescentes para o mundo do trabalho e na ampliação das perspectivas de futuro. Com 26 anos de trajetória na instituição, ele destacou que a certificação representa o reconhecimento de uma formação e a possibilidade de os jovens serem acolhidos profissionalmente pela sociedade: “Quando, ao final do curso, entregamos uma certificação, estamos dizendo à sociedade: aqui tem um profissional que pode ser acolhido pelo mundo do trabalho”, afirmou.

Sandro também colocou à disposição dos participantes a estrutura educacional do Senac para a continuidade da formação em outras áreas, como idiomas, tecnologia, saúde e gastronomia. Segundo ele, a parceria representa um compromisso que vai além das estruturas institucionais, porque está fundamentada na crença na transformação humana.

O diretor ainda falou sobre a importância da arte nesse processo. Para ele, além da educação, a expressão artística tem potencial para transformar sentimentos, desenvolver talentos e derrubar barreiras, contribuindo para a construção de novas perspectivas de vida.

Uma nova perspectiva para o futuro

Para uma das adolescentes participantes, a conclusão da etapa teórica/prática representa mais do que o encerramento de um período de aulas. É a possibilidade de chegar ao mercado de trabalho com novos conhecimentos e perspectivas para ajudar a família. “Quero agradecer ao Ministério Público, a toda a equipe da Sumese, ao nosso professor José Casado e também ao Senac pela oportunidade de fazer o curso de Serviços Administrativos. Ele me deu uma certa esperança para o mercado de trabalho. Acho que foi uma luz no fim do túnel para muitos adolescentes, para conseguir ajudar suas famílias e também, claro, pela oportunidade de aprendizado”, afirmou.

A fala sintetiza o propósito da iniciativa: oferecer condições para que adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas possam desenvolver habilidades, acessar oportunidades profissionais e construir novos caminhos. Com a conclusão da etapa teórica, os participantes avançam para a fase prática da formação, levando consigo conhecimentos, experiências e a possibilidade de transformar expectativas em projetos concretos de vida.

Para o Ministério Público de Alagoas, a articulação com instituições de ensino profissionalizante, empresas e órgãos públicos integra o esforço de construir respostas que contribuam para a efetivação dos direitos dos adolescentes e para a criação de oportunidades reais de reinserção social.

Fotos: João Cerqueira