O Ministério Público de Alagoas voltou os olhos para a própria história nesta sexta-feira (14) ao homenagear um dos nomes que mais contribuíram para a construção da instituição: o procurador de Justiça e ex-procurador-geral de Justiça Carlos Guido Ferrário Lobo, que morreu em 1989, aos 63 anos. Reunindo familiares, membros e amigos, a solenidade em alusão ao seu centário resgatou a trajetória de “Carlito” Lobo e destacou um legado de 14 anos à frente do MPAL, período marcado pelo fortalecimento institucional, pela defesa da autonomia do Ministério Público e pela valorização de seus integrantes.

A cerimônia reuniu membros do Ministério Público, integrantes do Sistema de Justiça, familiares e amigos para reverenciar a trajetória de “Carlito” Lobo, como era carinhosamente conhecido. A homenagem destacou não apenas sua atuação profissional, mas também o legado deixado para as gerações que o sucederam. Ao prestar homenagem à família, o procurador-geral de Justiça, Lean Araújo, ressaltou a importância de reconhecer aqueles que ajudaram a construir a história do Ministério Público. “Um momento como este é muito importante para a nossa instituição. É uma oportunidade de demonstrarmos gratidão e, ao mesmo tempo, de entrarmos um pouco na história de uma família que também faz parte da história do Ministério Público de Alagoas. Hoje, as famílias estão aqui, convivendo, compartilhando memórias e, de certa forma, revivendo histórias e laços que foram construídos ao longo de uma vida. E nós sabemos que momentos como este são únicos. A vida nos oferece poucas oportunidades de reconhecer, em vida ou por meio da memória, a importância de alguém e o impacto que essa pessoa teve sobre uma instituição. Por isso, é tão significativo ocupar este espaço para falar de Carlos Guido Ferrário Lobo, não apenas como procurador de Justiça e ex-procurador-geral de Justiça, mas como alguém que deixou uma marca na trajetória do Ministério Público de Alagoas”, destacou o chefe do MPAL.

E Lean Araújo continuou: “Demonstrar essa gratidão é também reconhecer o impacto positivo da atuação dele sobre a história do MP de Alagoas. É reconhecer um trabalho árduo, uma trajetória construída com dedicação e compromisso institucional, cujos frutos permanecem até hoje. E, para nós, é uma grande responsabilidade preservar essa memória. Porque, quando uma instituição reconhece aqueles que ajudaram a construí-la, ela também reafirma os seus próprios valores e fortalece os vínculos que existem entre as gerações que passaram por ela e aquelas que hoje têm a missão de continuar esse trabalho”, enfatizou. 

Um marco divisório na história do MPAL

A passagem de Carlos Guido Ferrário Lobo pela chefia do Ministério Público de Alagoas é considerada um marco divisório na trajetória da instituição, onde ele esteve à frente do órgão por 14 anos. Durante sua gestão, empenhou-se em garantir melhores condições estruturais e funcionais para o Ministério Público. Entre as iniciativas atribuídas à sua atuação estão a defesa da observância da classificação final dos concursos para a nomeação de promotores de Justiça, a regulamentação da promoção por mérito com critérios objetivos, a conquista de reposições de vencimentos para a categoria e o incentivo à formação e ao aperfeiçoamento técnico-jurídico dos membros, por meio de cursos de especialização.

Um dos principais marcos de sua administração ocorreu em 1984, quando conseguiu transferir a Procuradoria-Geral de Justiça das dependências localizadas nos fundos do Palácio da Justiça para uma sede própria, na Avenida Fernandes Lima, no bairro do Farol. O prédio, moderno e amplo para os padrões da época, recebeu o nome de Carlos Guido Ferrário Lobo por meio do Decreto nº 5.993/84, do então governador Divaldo Suruagy.

Para o subprocurador-geral Judicial, Sérgio Jucá, a atuação de Carlito Lobo representou uma transformação profunda no Ministério Público. “São elogios merecidos. Carlos Guido Ferrário Lobo promoveu uma autêntica revolução copernicana no Ministério Público. Eu tive a oportunidade de vivenciar esse momento. Era um jovem promotor de 23 anos e aprendi muito com o doutor Carlos. Aprendi a ter respeito ao semelhante, a ser equilibrado, a compreender a arte da tolerância. Mas, acima de tudo, aprendi a ser promotor de Justiça com os seus ensinamentos”, contou.

Compromisso com a instituição e com a Justiça

Procurador de Justiça aposentado, Ivan Brito também ressaltou as características pessoais e profissionais que fizeram de Carlito Lobo uma referência para seus contemporâneos: “Era de uma lealdade irretocável, amigo dos amigos na hora certa, batalhador e incansável na luta pelo fortalecimento do Ministério Público alagoano e pela boa aplicação da lei e da Justiça. Esses conceitos foram adquiridos em uma luta de mais de 35 anos, dos quais, 14 como procurador de Justiça”, relembrou.

Além da atuação no Ministério Público alagoano, Carlos Guido Ferrário Lobo exerceu funções de relevância em outras instituições do Sistema de Justiça, do Poder Executivo e da iniciativa privada. Ele foi procurador da Repúblic durante oito anos, procurador regional Eleitoral, subconsultor jurídico, procurador-geral e superintendente-geral do Serviço Social da Indústria (SESI-AL).

O desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas Fábio Ferrário enalteceu o papel exercido por Carlito Lobo na construção da autonomia institucional do Ministério Público e na aproximação com outras instituições do sistema de Justiça: “Em sua gestão, o MP deixou de ser um simples órgão, como já se foi falado aqui. Foi um procurador-geral de Justiça que trabalhou para realmente articular e firmar a independência que o Ministério Público tem hoje, mostrando a todos a seriedade e a importância da instituição. Para além disso, foi uma peça de interlocução entre o Ministério Público, o Judiciário e as demais instituições durante vários anos. Por fim, destaco ainda que foi ele quem nomeou a primeira promotora de Justiça alagoana, dando paridade entre homens e mulheres”, comentou o desembargador.

Um legado que ultrapassa gerações

Para o presidente da Associação do Ministério Público de Alagoas (Ampal), promotor de Justiça Givaldo Lessa, a dimensão de uma trajetória profissional deve ser medida também pela capacidade de transformar pessoas e instituições. “Todos nós vamos viver e morrer. Mas o importante é como vivemos, como morremos e como transformamos a vida das pessoas. Sem dúvida, Carlos Guido Ferrário Lobo contribuiu para essa transformação no dia a dia das pessoas com quem conviveu”, discursou. 

A trajetória de Carlos Guido Ferrário Lobo foi marcada ainda por valores que orientaram sua vida pessoal e profissional. Seu lema era “Honestidade acima de tudo”, princípio que, segundo registros históricos da instituição, norteou sua atuação inclusive em momentos de grande complexidade política e institucional. Emocionado, o filho do homenageado falou sobre o que a solenidade representou para a família: “É uma satisfação muito grande para a família Ferrário Lobo poder receber essa homenagem póstuma a Carlos Guido Ferrário Lobo, meu pai, pela passagem do seu centenário. Ele foi um exemplo de dedicação ao Ministério Público e, durante toda a sua vida, fez questão de ressaltar que era membro dessa insituição. Tenho certeza absoluta que, de onde ele estiver, está feliz, vestido em seu terno branco, mandando um forte abraço a todos os amigos do MP alagoano”, disse Carlos Alípio Ferrário de Carvalho Lobo. 

Fora da atividade jurídica, Carlito Lobo dedicou-se à família e aos esportes, especialmente ao vôlei e ao basquete, modalidades nas quais foi jogador campeão e reconhecido técnico.