De um lado, dois réus e três advogados, do outro o Ministério Público de Alagoas (MPAL) enfrentando argumentos infundados e provando que estavam envolvidos em tentativas de homicídio com requinte de crueldade. Na madrugada desta sexta-feira (20), com julgamento iniciado na manhã da quinta-feira (19), no salão do júri da 9ª Vara Criminal, no Fórum Desembargador Jairon Maia Fernandes, no Barro Duro, em Maceió, a promotora de Justiça Adilza de Freitas foi à sustentação convicta de que Jozedaque Jecteel Português da Silva (o Tchê), e Thiago Alves Lyra Santos (o bocão), integrantes da torcida organizada Mancha Azul, do Centro Sportivo Alagoanao (CSA), tinham participação nos crimes cometidos em 2 de agosto de 2023 contra Symei Araújo e Michael Douglas, da torcida rival alvirrubra, do Clube de Regatas Brasil (CRB). Foram mais de 19 horas de julgamento, presidido pelo juiz Geraldo Amorim, até a sentença de 33 anos e cinco meses de prisão para Thiago Lyra e para Jozedaque Silva que já se encontravam recolhidos no presídio do Agreste..
Pela acusação foram ouvidas as vítimas, a irmã e um primo de Symei que afirmou ter se deparado com “bocão” quando ia prestar socorro. Segundo ele, teria sofrido ameaças. Durante todo o julgamento, os réus entraram em contradição, tendo as falas sido desfeitas pela promotora de Justiça ao apresentar os depoimentos prestados por eles na delegacia. Thiago Lyra, por exemplo, tinha afirmado que no carro havia porretes, que o veículo pertencia a Jozedaque Silva. Nesta quinta-feira, disse não saber a quem pertencia, pois “as pessoas costumam deixar os carros lá na sede e a gente não sabe de quem é, aí deixam as chaves e quem chega pega o carro e sai”. Enquanto Jozedaque afirmou não ter carro e possuir moto, pois trabalhava como motorista de aplicativo mesmo informando não possuir Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A defesa de Thiago arrolou como testemunha uma tia dele, idosa, que informou estar com o réu no dia e horário do fato, porque o mesmo se recuperava de uma tentativa de assalto onde fora baleado e estava sem movimento no braço. Porém, um laudo feito dois dias após as tentativas de homicídio comprovam que “bocão” não apresentava nenhuma lesão. A promotora usou o telão para apresentar vídeo dos envolvidos em momento anterior ao fato, com gritos de guerra e porretes nas mãos. Ela também mostrou, com autorização de uma das vítimas, imagens dela caída, despida e com o crânio espatifado. “Eles não quiseram somente matar o Symei, quiseram desmoralizar e ferir sua dignidade, várias pessoas viram, mas têm medo dos atos cruéis e brutais que eles praticam contra as suas vítimas. Eles desnudaram o Symei, filmaram, furtaram seus pertences e compartilharam, como troféu, nos grupos da torcida organizada. ”, disse Adilza de Freitas nos debates. Já a defesa de Jozedaque levou para o salão do júri um amigo do seu pai, diácono da igreja, que relatou ter o réu crescido no evangelho e conhecê-lo desde criança. Porém, quando a promotora exibiu um video dos cinco denunciados com algazarra dentro de um carro, perguntou se reconhecia algum deles e disse que não, embora “tchê” estivesse no grupo.
O júri, de certa forma, transcorreu sob clima tenso com integrantes das duas torcidas se provocando com olhares, ao ponto de o juiz Geraldo Amorim determinar a retirada de todos. Alguns ousaram ir ao julgamento com as camisas do CRB e da organizada, tendo que trocar por outras.
Adilza de Freitas evidenciou o medo que impera quando as pessoas precisam depor acusando integrantes das torcidas organizadas. “Quando pedimos a condenação de quem tentou matar, estamos falando em defesa da vida. Várias pessoas viram, mas eles são brutais, e elas têm medo, pois semprem agem em bando e demore feequentan ”.
A promotora de Justiça avalia o resultado do júri como o fazimento de justiça, resposta à sociedade e a quem tem como hobbie cometer crimes.
“Vimos uma vítima, jovem, com sequelas graves, viva por um milagre, com o rosto todo deformado e afirmando que ainda tem medo. O Symei não conseguiu lembrar de quem o espancou, pois sua memória ficou comprometida com a perda de massa encefálica. Ele é um jovem que teve a vida destruída, porque é dependente para muitas coisas, que se olha no espelho e não se reconhece e que teve todos os sonhos atropelados pela violência. Mostramos ao conselho de sentença todos os detalhes, ele entendeu a responsabilidade que estava em suas mãos, a de mostrar que a sociedade não pode fechar os olhos para barbáries. E assim, em defesa da vida, a justiça foi feita”, conclui.
O caso
No dia 2 de agosto de 2023, Symei Araújo, Michael Douglas e mais dois amigos testavam na frente de casa quando dois veículos estacionaram e seus ocupantes, integrantes da torcida Mancha Azul, saíram com porretes revestidos de prego, tacos de beisebol, e começaram a desferir golpes. Dois conseguiram fugir, mas Symei E Michael foram alcançados.
Symei ficou em coma por quatro meses no Hospital Geral do Estado (HGE) com traumatismo cranioencefálico e, quando recebeu alta, passou mais dois meses em casa sem andar, falar e usando fraldas descartáveis. No momento ele ainda sente dificuldade para se expressar e continua precisando de fisioterapia e fonoaudiólogos.




