{"id":7693,"date":"2019-09-02T10:25:57","date_gmt":"2019-09-02T13:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/?p=7693"},"modified":"2022-06-01T10:30:11","modified_gmt":"2022-06-01T13:30:11","slug":"mutum-de-alagoas-primeira-especie-de-animal-extinta-na-natureza-na-america-do-sul-sera-reintroduzida-em-alagoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/?p=7693","title":{"rendered":"Mutum-de-alagoas: primeira esp\u00e9cie de animal extinta na natureza na Am\u00e9rica do Sul ser\u00e1 reintroduzida em Alagoas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">O alagoano ilustre finalmente vai voltar ao seu\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0natural. E pensar que ele poderia ter desaparecido por completo h\u00e1 cerca de quatro d\u00e9cadas, quando quase n\u00e3o existiam mais exemplares da sua esp\u00e9cie soltos na floresta. Estamos falando do Mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), uma ave j\u00e1 extinta da natureza e que figura como uma das mais amea\u00e7adas do planeta. A boa not\u00edcia \u00e9 que est\u00e1 chegando o dia em que ela voltar\u00e1 de vez para os remanescentes da Mata Atl\u00e2ntica de Alagoas e isso quer dizer que, pela primeira vez na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, um animal que havia desaparecido por completo do seu local natural, ser\u00e1 devolvido ao ambiente onde nasceu originalmente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">A for\u00e7a-tarefa montada para cuidar dos protocolos de reintrodu\u00e7\u00e3o, da qual o Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual de Alagoas (MPAL) faz parte, ainda n\u00e3o vai divulgar a data, mas j\u00e1 adianta que o m\u00eas escolhido foi setembro. At\u00e9 l\u00e1, estar\u00e3o acontecendo os \u00faltimos preparativos para que a ave possa voltar \u00e0 natureza de forma segura, sem os riscos de ser capturada por ca\u00e7adores, com a popula\u00e7\u00e3o recebendo educa\u00e7\u00e3o ambiental e, claro, com os cuidados necess\u00e1rios para que a mata esteja realmente preservada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">De acordo com o promotor de justi\u00e7a Alberto Fonseca, tr\u00eas casais ser\u00e3o devolvidos \u00e0 floresta localizada na usina Utinga, que fica no munic\u00edpio de Rio Largo. Mas, enquanto isso n\u00e3o acontece, um grande viveiro est\u00e1 sendo constru\u00eddo na regi\u00e3o exatamente com o objetivo de abrigar as aves para que elas passem por um processo de adapta\u00e7\u00e3o e, assim, estejam prontas para ganhar a liberdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">\u201cEsse \u00e9 um sonho que est\u00e1 sendo constru\u00eddo a muitas m\u00e3os, com gente dedicada, que tem amor \u00e0 natureza e que quer mostrar ao mundo que ainda \u00e9 poss\u00edvel termos um meio ambiente equilibrado, com fauna e flora coexistindo ao lado dos seres humanos. Foram muitas reuni\u00f5es, ao longo de anos, at\u00e9 chegarmos a esse momento de pr\u00e9-soltura. V\u00e1rios protocolos e termos de ajustamento de conduta (TAC) foram celebrados de modo que pud\u00e9ssemos preparar o terreno para chegada das aves. E olha, saber que estamos na contagem regressiva para v\u00ea-las soltas, livres, vivendo no seu local de origem, chega a ser emocionante\u201d, disse Fonseca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>O primeiro casal chegou em 2017<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Para testar a capacidade do Mutum-de-alagoas de se readaptar ao seu<em>\u00a0habitat<\/em>\u00a0natural, em 2017, essa mesma for\u00e7a-tarefa, formada por diversos pesquisadores, criadores e institui\u00e7\u00f5es, trouxe um casal de Minas Gerais para Alagoas. At\u00e9 hoje macho e f\u00eamea est\u00e3o em um viveiro instalado dentro do Centro de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental Pedro Nardelli, situado na usina Utinga, que aceitou ceder parte da sua \u00e1rea para o projeto. Esse investimento inicial de aproximadamente R$ 500 mil, oriundos de um TAC celebrado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, ajudou a tornar realidade a primeira reintrodu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul de uma esp\u00e9cie j\u00e1 extinta na natureza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">As aves, que foram trazidas para Alagoas em um voo comercial, fazem parte do plantel da Crax Brasil \u2013 Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, que fica em Contagem, Minas Gerais. E foram os seus fundadores, Roberto Azeredo e James Simpson, que deram continuidade ao sonho do empres\u00e1rio Pedro Nardelli, nascido no Rio de Janeiro. \u201cDe l\u00e1 pra c\u00e1, nosso trabalho tem se concentrado em aprimorar t\u00e9cnicas capazes de fazer o mutum-de-alagoas se reproduzir com regularidade\u201d, garantiu Azeredo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Quem foi Pedro Nardelli<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Foi o ambientalista Pedro Nardelli, empres\u00e1rio carioca, quem veio salvar o animal da extin\u00e7\u00e3o. Em 1976, ele descobriu que o mutum-de-alagoas estava desaparecendo. E a sua primeira experi\u00eancia na mata rendeu at\u00e9 uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada. \u201cDepois de muito peregrinar, descobri que havia um mutum preso. Fiquei curioso com a informa\u00e7\u00e3o e fui \u00e0 delegacia para saber o que o coitado do animal havia feito para estar atr\u00e1s das grades. O policial me disse que um camarada fora detido porque bateu na esposa. E como o sujeito estava acompanhado do bicho na hora do cumprimento do mandado, o mutum foi junto, mesmo n\u00e3o tendo nada a ver com a confus\u00e3o entre marido e mulher (risos). Acho que esse foi o \u00fanico caso no mundo onde um animal ficou detido num xadrez humano\u201d, relembrou Nardelli, quando esteve em Alagoas em 2017.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">E passado esse epis\u00f3dio, ele conseguiu convencer o dono a trocar o mutum-de-alagoas por um fais\u00e3o. Logo em seguida, em 1978, Nardelli voltou ao Estado, dessa vez, com uma expedi\u00e7\u00e3o, e ficou dois anos embrenhado na mata atl\u00e2ntica alagoana. E fez amizade com alguns ca\u00e7adores, que transformou em parceiros na busca por novos mutuns. Seu objetivo era que fazer com que eles n\u00e3o matassem os poucos exemplares que ainda poderiam existir naquela localidade, j\u00e1 que o mutum-de-alagoas era alvo f\u00e1cil por causa do seu tamanho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Em 1980, o ambientalista voltou para o Rio de Janeiro com cinco indiv\u00edduos. Eram os \u00faltimos vivos e, exatamente por isso, Nardelli decidiu salv\u00e1-los do completo desaparecimento. Foi quando teve in\u00edcio \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o em cativeiro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Tal trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o foi continuado pelos criadores mineiros Moacyr Dias e Roberto Azeredo. \u201cA Crax foi a respons\u00e1vel por um excepcional sucesso reprodutivo. L\u00e1, atualmente, existem hoje aproximadamente 100 aves mantidas sob rigoroso controle gen\u00e9tico e sanit\u00e1rio\u201d, explicou o ornit\u00f3logo Lu\u00eds F\u00e1bio Silveira, Curador das Cole\u00e7\u00f5es Ornitol\u00f3gicas do Museu de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (MZUSP).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Infelizmente Pedro Nardelli n\u00e3o poder\u00e1 acompanhar a devolu\u00e7\u00e3o do Mutum-de-alagoas ao seu ambiente natural. Ele faleceu no \u00faltimo s\u00e1bado, 24 de agosto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Os parceiros que idealizaram a reintrodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Enquanto as aves se reproduziam em cativeiro, Fernando Pinto, do Instituto de Preserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica (IPMA), desenvolvia, junto com o promotor de justi\u00e7a Alberto Fonseca (MPAL), e Jos\u00e9 da Silva Nogueira, da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de Alagoas, um trabalho de conserva\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos fragmentos florestais do Estado. A ideia era que essas \u00e1reas se convertessem em Reservas Particulares do Patrim\u00f4nio Natural (RPPNs), em um processo acompanhado pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) e pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos H\u00eddricos (SEMARH).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Em paralelo, pesquisadores do MZUSP e da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, campus Sorocaba (UFSCar), com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), trabalharam em conjunto para que o Mutum-de-alagoas possa, em setembro pr\u00f3ximo, seja a primeira esp\u00e9cie extinta na natureza a ser devolvida ao seu\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0natural na Am\u00e9rica do Sul. O \u00fanico exemplo conhecido de tal iniciativa realizada at\u00e9 hoje nas Am\u00e9ricas aconteceu no Hava\u00ed (EUA), algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>O mutum<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">O Mutum-de-alagoas \u00e9 uma ave de grande porte, dispersora de sementes e que possui um papel central na regenera\u00e7\u00e3o das florestas onde vive. A esp\u00e9cie habitava apenas a estreita faixa de Mata Atl\u00e2ntica de baixada no estado de Alagoas, e hoje \u00e9 uma das duas esp\u00e9cies de aves end\u00eamicas do Brasil j\u00e1 extintas na natureza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">\u201cGra\u00e7as aos esfor\u00e7os de criadores, ONGs, governos estadual e federal, pesquisadores brasileiros e o apoio financeiro da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), o Brasil \u00e9, mais uma vez, pioneiro em iniciativas inovadoras em conserva\u00e7\u00e3o, e demostra que a sinergia e a proatividade entre os diversos atores traz benef\u00edcios tang\u00edveis \u00e0 sociedade e \u00e0 natureza\u201d, destacou Lu\u00eds F\u00e1bio Silveira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">\u201cHoje s\u00f3 temos que comemorar essa expectativa de ver o mutum livre. Sua soltura coroa o trabalho de um grupo de abnegados que se esfor\u00e7ou para devolver \u00e0 natureza um animal extinto da mata desde o final da d\u00e9cada de 1970. E isso representa um sonho n\u00e3o s\u00f3 nosso, mas especialmente do Nardelli, que foi o respons\u00e1vel por resgatar o mutum, h\u00e1 40 anos. Infelizmente, ele n\u00e3o estar\u00e1 entre n\u00f3s para ver aquele seu desejo se tornar realidade. Por\u00e9m, sei que, onde estiver, tamb\u00e9m estar\u00e1 celebrando junto conosco. \u00c9 a ave s\u00edmbolo do estado de Alagoas voltando a morar no lugar de onde ela nunca deveria ter sa\u00eddo\u201d, disse Fernando Pinto, do IPMA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-raofz=\"14\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Foto: Luis F\u00e1bio Silveira.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":7694,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-7693","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-not_mpal"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7693"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7696,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7693\/revisions\/7696"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7694"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}