{"id":65768,"date":"2026-01-21T16:43:48","date_gmt":"2026-01-21T19:43:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/?p=65768"},"modified":"2026-01-21T16:44:11","modified_gmt":"2026-01-21T19:44:11","slug":"o-saber-que-sobreviveu-a-violencia-mp-lanca-webserie-sobre-o-quebra-de-xango","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/?p=65768","title":{"rendered":"O saber que sobreviveu \u00e0 viol\u00eancia: MP lan\u00e7a webs\u00e9rie sobre o \u201cQuebra de Xang\u00f4\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Gritos. Correria. Portas arrombadas. Objetos sagrados destru\u00eddos. Corpos marcados pela viol\u00eancia. Em 1912, Macei\u00f3 assistiu a um dos epis\u00f3dios mais brutais de sua hist\u00f3ria: o Quebra de Xang\u00f4, quando terreiros foram invadidos, religiosos de matriz africana perseguidos, espancados e assassinados em uma a\u00e7\u00e3o movida pelo \u00f3dio e pela intoler\u00e2ncia religiosa. Mais de um s\u00e9culo depois, essa mem\u00f3ria ainda precisa ser dita, registrada e preservada para que a viol\u00eancia n\u00e3o se repita. <\/span><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">\u00c9 com esse prop\u00f3sito que o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de Alagoas (MPAL) lan\u00e7a, nesta quarta-feira (21), Dia Nacional de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa, a webs\u00e9rie \u201cQuebra tudo, mas n\u00e3o quebra o saber\u201d. Dividida em quatro epis\u00f3dios, a produ\u00e7\u00e3o promove um resgate hist\u00f3rico e simb\u00f3lico do Quebra de Xang\u00f4 de 1912, um dos maiores epis\u00f3dios de intoler\u00e2ncia religiosa contra praticantes de religi\u00f5es de matriz africana no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A webs\u00e9rie re\u00fane depoimentos do historiador Zezito Ara\u00fajo, do antrop\u00f3logo Silo\u00e9 Amorim, do babalorix\u00e1 e tamb\u00e9m historiador Pai C\u00e9lio, da ialorix\u00e1 M\u00e3e Miri\u00e3 e dos promotores de Justi\u00e7a Lucas Sachsida, Dalva Ten\u00f3rio e Alexandra Beurlen. A produ\u00e7\u00e3o reconstr\u00f3i os acontecimentos, suas consequ\u00eancias e os impactos que ainda hoje reverberam na sociedade. O objetivo \u00e9 claro: preservar a mem\u00f3ria como ferramenta de conscientiza\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando que a destrui\u00e7\u00e3o do passado \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de viol\u00eancia no presente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Silo\u00e9 Amorim \u00e9 professor doutor em Antropologia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), pesquisador da tem\u00e1tica e um dos documentaristas respons\u00e1veis por uma obra audiovisual premiada que ajudou a preservar e difundir a mem\u00f3ria do Quebra de Xang\u00f4. \u201cO meu prop\u00f3sito foi contribuir para contextualizar historicamente o epis\u00f3dio e refor\u00e7ar a import\u00e2ncia do registro cient\u00edfico e cultural dessas viol\u00eancias\u201d, defendeu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">O t\u00edtulo da webs\u00e9rie carrega um significado profundo. \u201cQuebra tudo, s\u00f3 n\u00e3o quebra o saber\u201d \u00e9 uma frase historicamente atribu\u00edda \u00e0 tia Marcelina, ialorix\u00e1 assassinada durante o Quebra de Xang\u00f4. Mesmo diante da viol\u00eancia, a express\u00e3o simboliza a resist\u00eancia do conhecimento ancestral, da f\u00e9 e da identidade cultural que, apesar das tentativas de apagamento, sobreviveram ao massacre e seguem sendo transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Intoler\u00e2ncia \u00e9 crime<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Al\u00e9m do resgate hist\u00f3rico, a produ\u00e7\u00e3o reafirma que intoler\u00e2ncia religiosa \u00e9 crime. \u201cA discrimina\u00e7\u00e3o motivada por religi\u00e3o est\u00e1 prevista na Lei n\u00ba 7.716\/1989, que tipifica os crimes resultantes de preconceito de ra\u00e7a, cor, etnia ou religi\u00e3o. A Constitui\u00e7\u00e3o Federal tamb\u00e9m assegura, como direito fundamental, a liberdade de cren\u00e7a e de culto\u201d, explicou a promotora de Justi\u00e7a Dalva Ten\u00f3rio, titular da 59\u00aa Promotoria de Justi\u00e7a (PJ) da capital, que atua no enfrentamento aos crimes de intoler\u00e2ncia religiosa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Para o promotor de Justi\u00e7a Lucas Sachsida, que atua em conjunto na 59\u00aa PJ, o enfrentamento a esse tipo de viol\u00eancia \u00e9 uma responsabilidade permanente do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Segundo ele, \u201cfalar do Quebra de Xang\u00f4 \u00e9 afirmar um ponto b\u00e1sico da Constitui\u00e7\u00e3o: ningu\u00e9m pode ser perseguido por sua f\u00e9. O Estado tem o dever de promover o bem de todos, sem preconceito, e garantir igualdade e liberdade religiosa na pr\u00e1tica. Por isso, o Minist\u00e9rio P\u00fablico atua para responsabilizar agressores, proteger v\u00edtimas e fortalecer uma cultura de respeito: mem\u00f3ria aqui \u00e9 preven\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a\u201d. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">O promotor de Justi\u00e7a Ricardo Lib\u00f3rio, que trabalha na 60\u00aa Promotoria de Justi\u00e7a, tamb\u00e9m no combate a esse tipo de crime, explica que &#8220;no campo espec\u00edfico da intoler\u00e2ncia \u2014 seja ela religiosa, \u00e9tnica ou cultural \u2014 o MP n\u00e3o pode se limitar \u00e0 repress\u00e3o posterior. \u00c9 nosso papel afirmar que a diversidade \u00e9 um valor constitucional e que ataques a identidades coletivas fragilizam a democracia. Combater a intoler\u00e2ncia \u00e9 garantir que direitos fundamentais n\u00e3o sejam relativizados por preconceitos naturalizados ou por omiss\u00f5es institucional&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Como atua o Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">O Minist\u00e9rio P\u00fablico conta com uma promotoria com atribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na defesa da liberdade religiosa, que \u00e9 a PJ de Direitos Humanos (DH), al\u00e9m de duas promotorias que enfrentam crimes contra popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, o que inclui, entre seus eixos de atua\u00e7\u00e3o, a repress\u00e3o aos il\u00edcitos penais praticados contra religiosos de matriz africana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif; font-size: 12pt;\">Dentro da atua\u00e7\u00e3o promovida pelo MPAL, o N\u00facleo de Defesa da Educa\u00e7\u00e3o, ligado ao Centro de Apoio Operacional \u00e0s Promotorias de Justi\u00e7a (Caop), criou o projeto \u201cDever de Casa\u201d. A iniciativa ganhou apoio do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) que, utilizando as informa\u00e7\u00f5es oriundas do Minist\u00e9rio P\u00fablico, aprimorou, em 2024, a Pol\u00edtica Nacional de Equidade, Educa\u00e7\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais e Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola (PNEERQ), tendo sido Alagoas o primeiro estado a aderir \u00e0s novas regras para a efetiva implementa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o quilombola, afro-brasileira e ind\u00edgena, o que inclui o estudo das religi\u00f5es de matriz africana. constru\u00eddo a partir do art. 26-A da Lei de Diretrizes B\u00e1sicas (LDB), deslocando o debate do discurso para a pr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Ao lan\u00e7ar a webs\u00e9rie \u201cQuebra tudo, mas n\u00e3o quebra o saber\u201d, o MPAL reafirma que mem\u00f3ria \u00e9 justi\u00e7a, e que lembrar o Quebra de Xang\u00f4 n\u00e3o \u00e9 apenas revisitar o passado, mas assumir um compromisso com o presente e o futuro: o de n\u00e3o tolerar, normalizar ou silenciar nenhuma forma de viol\u00eancia motivada pela f\u00e9\u201d, argumentou a promotora de Justi\u00e7a Alexandra Beurlen, da \u00e1rea de DH.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>O contexto da frase que d\u00e1 nome \u00e0 webs\u00e9rie<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Tia Marcelina era uma ialorix\u00e1 respeitada no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Diz a tradi\u00e7\u00e3o oral e registros hist\u00f3ricos que, enquanto seu terreiro era invadido e objetos sagrados destru\u00eddos, ela teria proferido a frase para demonstrar que a f\u00e9 e o conhecimento ancestral n\u00e3o poderiam ser destru\u00eddos pela viol\u00eancia f\u00edsica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Em homenagem a ela, o Governo do Estado criou uma delegacia que trabalha contra crimes a popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. O pr\u00e9dio da Pol\u00edcia Civil leva o seu nome.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":65773,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"quote","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-65768","post","type-post","status-publish","format-quote","has-post-thumbnail","hentry","category-not_mpal","post_format-post-format-quote"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/65768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=65768"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/65768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65778,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/65768\/revisions\/65778"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/65773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=65768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=65768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mpal.mp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=65768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}