“Enquanto mulheres, queremos ser reconhecidas como sujeitos capazes”, diz promotora em evento sobre empoderamento feminino, em Arapiraca

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Aqualtune, Dandara, Nise da Silveira, Juliana de Faria, Justina Inês Cima, Luiza Jaborandy, Maria da Penha. Essas mulheres, ao lado de dezenas de outras com valores tão semelhantes, porém ainda anônimas e que fazem o programa social Ministério Público Comunitário – que pertence ao Ministério Público Estadual de Alagoas, fizeram parte do conteúdo da palestra "O tempo é agora: ativistas urbanas e rurais transformam a vida das mulheres", ministrada pela promotora de justiça Maria José Alves, que atua na 38ª Promotoria de Justiça da Capital. O evento, alusivo ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo dia 8, aconteceu na Campus de Arapiraca da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e foi promovido pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Políticas para Mulheres daquele município.

“O tema que escolhi para este encontro é o mesmo selecionado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2018. A ONU percebeu que as discussões sobre o empoderamento das mulheres, tanto as que têm um comportamento mais atuante e moram na cidade, quanto as mulheres rurais, precisam acontecer. Inclusive, têm crescido bastante as demandas relacionadas as mulheres rurais. No mundo, 25% da população feminina é formada por mulheres que moram e trabalham no campo, e pouca atenção se dá a isso. O que queremos é que as pessoas percebam que a mulher deve ser a protagonista da sua própria história. Por isso, trago hoje os exemplos de mulheres que, apesar de todas as adversidades, mudaram. E ao alterarem essa história pessoal, elas transformaram também seu entorno, contribuindo para modificar as vidas de tantas outras mulheres. Então, o que estamos fazendo aqui é um chamamento! Enquanto mulheres, queremos ser reconhecidas como sujeitos capazes”, declarou Maria José Alves, na abertura da palestra.

E antes de falar sobre as mulheres que ela considera exemplos de vida e inspiração, a promotora de justiça também ressaltou que uma das formas de libertação do sexo feminino é não aceitar relacionamentos abusivos, que submetem a vítima as mais diversas formas de violência: psicológica, física, sexual e patrimonial. “Quando se fala em Maria da Penha, muitas pessoas só pensam na questão do crime em si. No entanto, a lei trata de muitas outras coisas, como os direitos cíveis violados e a exigência de políticas públicas. Então, quando a gente trabalha o empoderamento na mulher, mostramos a possibilidade de transformação na vida delas. Apontamos uma chance de vida sem violência, com a recuperação da auto-estima, fazendo-as se sentirem capazes de reagir. Depois desse processo, elas mesmas percebem que aquela primeira agressão sequer deveria ter acontecido”, explicou.

Sáskya Maia, coordenadora municipal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, aproveitou a oportunidade para lembrar que a Prefeitura de Arapiraca possui o Centro de Referência e Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAMSV): “É um órgão municipal que acolhe, cuida e orienta vítimas. Nossa equipe multidisciplinar está sempre pronta para ajudar essas mulheres que precisam de apoio e direcionamento”, garantiu.

O vice-reitor da Uneal, Clébio Araújo, destacou a importância do tema abordado na palestra. “A cultura do machismo, infelizmente, ainda é reproduzida dentro de casa, na sala de aula, no ambiente de trabalho. O diálogo que acontece para se combater esse tipo de coisa é fundamental para transformar mentes. E ele precisa ocorrer no maior número de espaços, públicos ou privados. Só assim vamos construir uma sociedade mais justa e igualitária”, declarou ele.

As mulheres inspiradoras

Aqualtune e Dandara foram as primeiras mulheres a ter suas histórias compartilhadas com o público. “Aqualtune era uma princesa do Congo que foi tragicamente escravizada no Brasil. Era mãe de Gamba Zumba e avó de Zumbi dos Palmares. Por ter noções organizacionais e de estratégia, foi muito importante na resistência e na defesa dos quilombos. Já Dandara foi a esposa do líder negro Zumbi. Capoeirista, sempre estava na linha de frente das batalhas. Ia para a guerra com os homens, lutava de igual para igual. Talvez fosse até melhor que alguns deles”, destacou a promotora.

Na sequência, Maria José Alves falou sobre uma alagoana ilustre e que revolucionou a psiquiatria no mundo: Nise da Silveira. “Foi a primeira mulher a fazer Medicina no Brasil e transformou todo o entendimento sobre o tratamento mental no país. Combateu os choques elétricos e trouxe a arteterapia como alternativa para recuperação dos pacientes psiquiátricos que, por muito tempo, viviam numa segregação perversa”, contou.

“Vocês também precisam conhecer sobre Juliana de Faria, jornalista que se tornou uma das principais vozes do feminismo no Brasil. Ela é cofundadora do Think Olga, uma ONG criada em 2013 que tem o objetivo de empoderar mulheres por meio da informação. Juliana também participou ativamente da campanha ‘Chega de fiu fiu’, cuja mensagem principal é mostrar que ninguém deve ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher”, detalhou Maria José Alves.

A catarinense e trabalhadora rural Justina Inês Cima é mais uma mulher considerada inspiradora pela 38ª Promotoria de Justiça da Capital. “Justina poderia ter se conformado em ter uma vida simples no campo, longe da educação e do ativismo social. Mas ela fez exatamente o contrário. Tornou-se uma liderança feminina na luta pela garantia do ensino superior para as mulheres rurais. Sua história de vida prova que a educação é um direito que deve ser perseguido, não importa a idade. Em 2006 ela terminou o ensino fundamental. Na sequência, o ensino médio. E, recentemente, aos 60 anos, conquistou o diploma de pedagoga”, disse a promotora.

"É claro que também não posso deixar de falar da Maria da Penha, bioquímica cearense que dá nome a uma das leis mais famosas do país. Em 1983, ela foi vítima de um tiro nas costas, enquanto dormia, dado pelo seu então marido. Marco Antonio Heredia foi condenado, mas recorreu da sentença em liberdade. Foi a militância de Maria da Penha contra a violência doméstica e familiar contra a mulher que resultou na condenação internacional do Brasil pela tolerância e omissão nos casos desse tipo de agressão. Depois disso, o Brasil se viu obrigado a mudar a legislação para que permitisse, nas relações de gênero, a prevenção e proteção da mulher em situação de violência doméstica e a punição do agressor", enfatizou.

“Por fim, volto a falar sobre mulheres alagoanas que devem ser consideras referências. A Luiza Jaborandy, festora institucional do Mulheres Mil, programa de programa de capacitação feminina que envolve palestras, dinâmicas e atividades de formação cidadã, é uma delas. E, com muito orgulho e amor, deixo aqui a minha admiração pelas mulheres do Ministério Público Comunitário, o primeiro programa social do nosso MP de Alagoas. É por causa da Jediane, da Luciana, da Carol, da Edith, da Judite, da Valdirene, da Eugênia, da Rita, da Carla, da Irene, da Karina, da Valmênia, da Expedita, da Neide e de tantas outras que a comunidade do bairro do Vergel do Lago consegue resolver pequenos e médios problemas, sem precisar acionar o sistema da justiça. Os próprios moradores mediam seus conflitos e buscam soluções para eles. É um projeto lindo e transformador”, assegurou Maria José Alves.

A estudante de Pedagogia Maria Cícera Sandes Araújo deixou o auditório feliz com o que ouviu durante quase duas horas. “Muito mais do que preparo técnico, a gente precisa trabalhar sendo humana, tentando entender a outra e buscando oferecer o que temos de melhor. A fala com emoção da promotora nos instiga a exercer nossa profissão com mais qualidade e acreditando que podemos fazer a diferença como mulher. Estou saindo daqui com a responsabilidade de participar desse processo, com a intenção de mudar valores”, afirmou ela.

Fabrízia Amaral, assistente social do Hospital Geral do Estado, reconheceu a necessidade de se discutir mais vezes esse tema e lembrou que muitas mulheres são vítimas de violência doméstica e familiar porque se sentem inferior ao homem. “São muitos anos no HGE e, lá, costumo ouvir os relatos das pacientes. Elas realmente quase não possuem amor-próprio, o que as deixa numa condição de submissão extrema. Por isso é tão importante que elas tenham pessoas e profissionais capazes e preparados para lhes incentivar a quebrar o silêncio. A acolhida tem que ser diferenciada para que elas possam mudar de vida. Foi uma manhã bastante proveitosa e incentivadora”, declarou a assistente social.

 

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